Golpe do falso advogado: como funciona e o que fazer antes de pagar?


Receber uma mensagem dizendo que existe um valor alto para receber em um processo pode parecer uma boa notícia.
O problema é que, em muitos casos, essa mensagem não vem do advogado verdadeiro.
Ela vem de golpistas que usam nomes, fotos, logotipos, números de processo e informações reais para convencer a vítima a fazer um pagamento por Pix, transferência ou boleto.
O golpe do falso advogado tem se tornado cada vez mais comum e atinge tanto clientes quanto escritórios de advocacia.
Em muitos casos, a vítima acredita estar falando com o advogado responsável pelo processo, com alguém do escritório, com um servidor do fórum ou com um suposto setor financeiro.
A abordagem costuma ter um ponto em comum: antes de receber o dinheiro prometido, a vítima precisa pagar uma taxa.
1. O que é o golpe do falso advogado?
O golpe do falso advogado acontece quando criminosos se passam por advogados, escritórios de advocacia ou pessoas ligadas a um processo judicial para convencer a vítima a pagar algum valor.
Normalmente, o golpista afirma que existe uma quantia liberada ou prestes a ser liberada, mas que, para receber esse dinheiro, a pessoa precisa pagar uma suposta taxa.
Essa taxa pode aparecer com nomes diferentes, como:
• custas; • imposto; • alvará; • taxa de liberação; • taxa de cartório; • honorários pendentes; • certidão; • desbloqueio de valor; • atualização processual; • taxa para expedir pagamento; • guia judicial; • antecipação para liberar indenização.
O objetivo é fazer a vítima acreditar que está diante de uma etapa normal do processo.
Mas, na prática, o pagamento solicitado pode ser apenas a forma encontrada pelo golpista para retirar dinheiro da vítima.
2. Como esse golpe costuma acontecer?
O golpe geralmente começa por mensagem de WhatsApp, ligação, SMS, e-mail ou perfil falso em rede social.
O criminoso pode usar:
• nome de um advogado verdadeiro; • foto retirada de redes sociais; • logotipo de um escritório; • número de processo; • nome completo da vítima; • dados de um processo real; • documentos falsificados; • prints simulando movimentações processuais; • linguagem jurídica para dar aparência de credibilidade.
Em alguns casos, o golpista diz que houve ganho de causa, acordo aprovado, indenização liberada, precatório disponível, alvará expedido ou valor parado aguardando liberação.
Depois, ele cria uma justificativa para o pagamento.
A mensagem pode dizer, por exemplo:
• “O valor já está liberado, falta apenas pagar a taxa do alvará”; • “Para receber hoje, precisa quitar a guia”; • “O juiz autorizou o pagamento, mas há uma pendência”; • “O cartório exige o recolhimento antes da transferência”; • “Se não pagar agora, o valor volta para bloqueio”; • “O prazo termina hoje”.
Esse tipo de abordagem mistura esperança, urgência e pressão.
E é justamente isso que torna o golpe perigoso.
3. Quais sinais de alerta observar?
Existem alguns sinais que devem acender um alerta antes de qualquer pagamento.
Desconfie se a pessoa:
• entra em contato por um número desconhecido; • usa foto de advogado, mas o número não é o habitual; • pressiona para pagamento imediato; • diz que o prazo termina no mesmo dia; • promete liberação rápida de valor alto; • pede Pix para pessoa física desconhecida; • envia chave Pix sem identificação clara; • informa dados bancários de terceiro; • diz que não pode falar por ligação; • usa linguagem muito urgente ou ameaçadora; • pede sigilo; • envia documentos com aparência estranha; • usa erros de português ou informações confusas; • não aceita que você confirme diretamente com o advogado ou escritório; • afirma que o valor será perdido se você não pagar naquele momento.
Um ponto muito importante: advogado sério não deve impedir o cliente de confirmar uma informação diretamente pelo canal oficial do escritório.
Se a pessoa fica incomodada porque você quer conferir, esse já é um sinal de alerta.
4. O que fazer antes de pagar qualquer valor?
Antes de pagar qualquer taxa, guia, Pix ou boleto, pare e confirme.
Não tome a decisão no impulso.
O ideal é seguir alguns cuidados:
• não clique em links enviados por desconhecidos; • não pague valores com base apenas em mensagem de WhatsApp; • não envie documentos pessoais antes de confirmar a origem; • não aceite pressão para pagamento imediato; • não use apenas o número que entrou em contato com você; • procure o telefone oficial do advogado ou escritório; • confirme pelo site, contrato, cartão, e-mail oficial ou contato já salvo; • ligue para o escritório por um canal que você já conhecia; • peça explicação detalhada sobre o valor; • solicite dados formais do pagamento; • verifique se o beneficiário do Pix tem relação com o advogado ou escritório; • desconfie de Pix para nome desconhecido ou conta de terceiro.
Se você tem processo em andamento, também é possível conferir informações básicas nos canais oficiais do Tribunal, quando disponíveis.
Mas atenção: golpistas podem usar informações verdadeiras do processo. Por isso, o fato de a pessoa saber seu nome, número do processo ou nome do advogado não garante que ela seja legítima.
Dado verdadeiro também pode ser usado em golpe.
5. O advogado pode pedir valores durante o processo?
Pode existir cobrança legítima de honorários, custas, despesas, guias ou valores relacionados ao processo, a depender do contrato e do caso concreto.
O problema não é a existência de cobrança.
O problema é quando a cobrança aparece de forma suspeita, por número desconhecido, com urgência incomum, sem explicação clara, com dados de terceiro ou com promessa de liberação imediata de valores.
Antes de pagar, confirme:
• se a cobrança está prevista no contrato; • se o valor faz sentido; • se o pedido veio de canal oficial; • se o beneficiário é compatível; • se há documento formal; • se o escritório confirma a solicitação; • se o advogado responsável reconhece aquele pedido.
Quando há dúvida, não pague no impulso: confirme antes!
6. Quais provas guardar se você recebeu a mensagem?
Se você recebeu uma mensagem suspeita, mesmo sem ter pago, guarde as provas.
Isso pode ajudar a identificar a tentativa de golpe e proteger outras pessoas.
Procure salvar:
• prints da conversa completa; • número de telefone utilizado; • foto do perfil; • nome usado pelo golpista; • chave Pix informada; • nome do beneficiário; • banco de destino; • documentos enviados; • links recebidos; • áudios; • e-mails; • horários das mensagens; • comprovantes, se houve pagamento; • prints de qualquer ameaça, pressão ou promessa; • dados do processo mencionados pelo golpista.
Evite apagar a conversa.
Se possível, exporte o histórico e guarde também os arquivos recebidos.
Se houver uso indevido do nome ou imagem de um advogado, o escritório verdadeiro também deve ser avisado para que possa alertar outros clientes e adotar providências.
7. O que fazer se você já pagou?
Se você já fez o pagamento, o mais importante é agir rápido.
Depois de perceber que caiu no golpe, siga estes passos:
• não apague a conversa; • tire prints de tudo; • guarde o comprovante do Pix, boleto ou transferência; • anote data e horário do pagamento; • registre o nome e os dados do beneficiário; • comunique imediatamente o banco; • peça protocolo de atendimento; • se foi Pix, solicite análise pelo MED; • faça boletim de ocorrência; • avise o advogado ou escritório verdadeiro; • organize uma linha do tempo do ocorrido; • não faça novos pagamentos; • desconfie de promessas de recuperação imediata mediante nova taxa.
É comum que, depois do primeiro pagamento, o golpista invente outra pendência.
Pode dizer que faltou uma segunda taxa, que o valor ficou bloqueado, que precisa pagar imposto, que houve erro na guia ou que existe uma multa para liberar o dinheiro.
Não continue pagando.
Quando há golpe, novas cobranças costumam ser apenas uma forma de aumentar o prejuízo.
8. O banco pode ser responsabilizado?
Depende do caso.
Nem todo golpe do falso advogado gera responsabilidade automática do banco.
Mas também não é correto afirmar que a discussão acaba apenas porque a vítima fez o Pix ou confirmou a transação.
Em alguns casos, pode ser necessário analisar:
• valor da operação; • perfil financeiro da vítima; • se a transação era compatível com o histórico da conta; • rapidez da comunicação ao banco; • resposta da instituição depois da fraude; • tentativa de bloqueio ou devolução; • acionamento do MED, quando se tratar de Pix; • conta recebedora e seus dados cadastrais; • eventual atipicidade da movimentação; • fundamentação da negativa do banco; • documentação técnica apresentada pela instituição.
A análise deve considerar o contexto completo.
O fato de a vítima ter sido induzida a pagar não elimina automaticamente a necessidade de verificar se houve falha na prestação do serviço, especialmente quando a operação tiver características atípicas ou quando a resposta da instituição for genérica.
Cada caso depende das provas.
9. Como advogados e escritórios também podem se proteger?
O golpe do falso advogado não prejudica apenas a vítima que paga.
Ele também pode afetar a reputação de advogados e escritórios que têm nome, foto, logotipo ou dados utilizados indevidamente por criminosos.
Por isso, escritórios podem adotar medidas preventivas, como:
• informar os canais oficiais de contato; • orientar clientes sobre como confirmar cobranças; • evitar envio de cobranças sem identificação clara; • usar e-mails institucionais; • manter contratos e orientações bem documentados; • avisar clientes sobre golpes recorrentes; • publicar alertas em site e redes sociais; • orientar que pagamentos sejam confirmados previamente; • registrar provas quando houver uso indevido de nome, imagem ou marca; • avaliar medidas cabíveis em caso de falsidade, fraude ou uso indevido de identidade profissional.
A comunicação preventiva pode evitar prejuízos e reduzir a chance de clientes serem enganados.
Conclusão
O golpe do falso advogado explora confiança, esperança e urgência.
A vítima acredita que está prestes a receber um valor e, por medo de perder a oportunidade, acaba pagando uma suposta taxa.
Antes de qualquer pagamento, confirme a origem da mensagem, use canais oficiais, desconfie de urgência exagerada e nunca aceite pressão para transferir dinheiro imediatamente.
Se você já pagou, organize as provas, comunique o banco, peça protocolo, registre boletim de ocorrência e avise o advogado ou escritório verdadeiro.
Cada caso depende das provas, da dinâmica da fraude, da resposta das instituições envolvidas e do contexto do pagamento.
Precisa de orientação?
Se você recebeu mensagem de um suposto advogado pedindo pagamento para liberar valores ou se já fez um Pix em uma situação suspeita, organize prints, comprovantes, protocolos, boletim de ocorrência e a linha do tempo do ocorrido.
Com essas informações em mãos, busque orientação jurídica para entender quais medidas podem ser avaliadas no seu caso, sempre com análise individual e sem promessa de resultado.
Sobre a autora
Dra. Anna Carolina de Medeiros Silva é advogada com atuação em Direito Digital, proteção de dados pessoais e responsabilidade civil em fraudes digitais. Atua na análise técnica de incidentes envolvendo golpes bancários, golpe do Pix, transações não reconhecidas, contas hackeadas, bloqueios indevidos em plataformas digitais e uso indevido de imagem.




Comentários